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O pior da crise das montadoras já passou e o setor deve se normalizar em 2022

Presidente de uma das maiores locadoras de veículos do país celebra resultados recordes e prevê crescimento inédito.

À frente da Movida, que divide com Unidas e Localiza Hertz o pódio das maiores locadoras de veículos do País, o executivo Renato Franklin viveu nos últimos 18 meses os dois extremos de sua trajetória profissional. No começo de 2020, o pior período da história. Na primeira metade deste ano, o melhor resultado de todos os tempos. “Uma combinação de fatores nos levou a um desempenho recorde”, afirmou à DINHEIRO. Com faturamento anualizado de R$ 5,4 bilhões no primeiro semestre, a companhia desembolsou R$ 2,8 bilhões entre janeiro e junho para comprar 50 mil carros, o que impulsionou as montadoras. Só não cresceu mais, segundo ele, porque não havia carro para comprar.

DINHEIRO — O balanço da Movida chama a atenção pelos resultados recordes, apesar da economia retraída. Como isso foi possível?
Renato Franklin — Foco na gestão. Nossos resultados vieram muito acima do esperado. Conseguimos entregar recordes em todos os segmentos que atuamos. Houve crescimento em todas as linhas de negócios. Tivemos uma evolução grande em eficiência operacional e de margem. Fechamos no segundo trimestre com o recorde de R$ 3,6 bilhões de caixa, alavancagem de 2,9 vezes e um Ebitda de R$ 1,8 bilhão. A geração de caixa que tenho hoje me dá uma grande capacidade de crescimento. Ainda houve outros destaques, com lucro bem forte. O lucro do primeiro trimestre deste ano é o mesmo de 2019 inteiro.

As outras empresas do setor não tiveram o mesmo foco na gestão?
A gente agiu diferente do mercado durante a pandemia. Fomos os primeiros a vender os carros lá no primeiro trimestre do ano passado, enquanto as outras empresas do setor estavam esperando para ver o que fariam. Essa antecipação nos permitiu agora a ser os primeiros a comprar. Terminamos 2019 com 118 mil carros. Hoje estamos com 160 mil carros. É um crescimento muito relevante.

Parte do crescimento da Movida veio por aquisições. Qual o impacto no resultado?
Uma parte, sim. A gente fez a aquisição da CS Frotas, que foi aprovada pela assembleia na última segunda-feira, dia 26. Isso deu para gente ainda mais capacidade de crescimento. A expansão orgânica foi de 22%. Contando com a aquisição da CS, foi de 45% durante a pandemia. O segmento de gestão de frotas, uma unidade de negócios relevante na companhia e que entrega a maior margem, com mais de 65% de Ebitda, dobrou de tamanho do pré-pandemia para cá, de 38 mil carros em dezembro de 2019 para 80 mil carros agora.

Houve mudanças nos hábitos de deslocamento durante o isolamento social que influenciaram os negócios da companhia?
Com certeza. O carro por assinatura para pessoa física é uma das alavancas mais importantes do nosso crescimento. Ele é mais barato do que o financiamento. E chega a ser mais vantajoso do que a compra à vista se levar em conta todo o benefício que a gente entrega de serviços. Então, temos muito espaço para crescer.

Quais são as outras alavancas?
Para os próximos três anos, a primeira é a migração do transporte de massa para o transporte individual. Muita gente deixou de usar o sistema público e passou para o aplicativo ou para o veículo alugado. A segunda: a flexibilidade do trabalho. O home office ampliou as viagens de curta distância. As pessoas podem trabalhar de qualquer endereço. Quem mora em cidades grandes, como São Paulo, não consegue ficar confinado em apartamentos pequenos. Ninguém aguenta. Então, aqueles picos de locação, como sexta-feira à noite, com devolução domingo à tarde, acabaram. Com isso, nossa capacidade operacional aumentou muito. Agora, os clientes pegam o carro na quinta-feira, a qualquer hora, e ficam mais dias com o automóvel. Aumentou muito a duração das locações. A média por contrato, que antes era de dois dias, agora passa de cinco dias. Então, o home office junto com a escola remota ajudaram muito a gente. Isso mais do que compensou a queda na demanda das viagens corporativas. Eu que viajo muito pelo Brasil vejo as pessoas cansadas da pandemia.

Divulgação “Temos uma capacidade ociosa grande. Esse é o maior problema. Podemos produzir 5 milhões de carros e estamos demandando apenas 2 milhões” (Crédito:Divulgação)

A retomada econômica pode acelerar o crescimento do setor?
Vamos ter um segundo semestre melhor, mas o desempenho do nosso setor independe do ritmo da economia. Historicamente, o mercado de locação de veículos é três a quatro vezes o crescimento do PIB. Vamos performar bem independentemente do macro. Mais no médio prazo, vejo um cenário muito positivo nos próximos três anos. O mercado de locação inteiro tem uma frota de 1 milhão de carros. Já a quantidade de carros zero para pessoa física, mesmo na pandemia, é de 1,2 milhão.

O carro zero quilômetro está subindo de preço de forma impressionante, puxando para cima o custo para comprar um usado também. Esse cenário ajuda o mercado?
Essa combinação nos favorece por dois motivos. O primeiro é a inflação. Está cada vez mais difícil para o cliente comprar um carro zero. Os reajustes do automóvel são, historicamente, de 4,5% ao ano. Hoje estão em um ritmo de 15% a 20% ao ano. Muito pesado. O segundo é a tendência do mercado automotivo de caminhar para carros mais premium. As montadoras estão diminuindo a produção de compactos e aumentando a de SUVs. Então, os carros ficaram mais caros e a oferta de carros de entrada, aqueles de motor 1.0 basicão, está mais escassa. Hoje pouca gente tem R$ 80 mil para comprar um SUV de entrada, mesmo financiando. Agora, pagar R$ 2 mil de aluguel muita gente consegue. Isso traz mais demanda.

Sob a ótica do consumidor, existe pouca concorrência no mercado. Qual a sua avaliação?
A concorrência está bem racional. Não vejo uma disputa agressiva de preço. Então, a gente tem conseguido repassar preço para o consumidor e manter o crescimento.

Por que alugar um carro no Brasil é mais caro do que nos Estados Unidos ou na Europa?
Era assim. Mudou bastante. Até a entrada da Movida no mercado, as locadoras cobravam muito caro por carros básicos. Naquela época, 80% da frota eram de modelos com motor 1.0 e apenas 30% tinham ar-condicionado. Como conseguimos ganhar escala e aumentou a competição, a diária média foi caindo e o nível dos carros subindo. Hoje as opções são muito melhores. Com a inflação de 85% que houve nos Estados Unidos durante a pandemia nas diárias de locação, hoje é mais caro alugar lá do que aqui. A nossa diária média é de pouco mais de R$ 80, mais ou menos US$ 15. A diária média americana está acima de US$ 50.

Muitas montadoras estão enfrentando problemas para produzir, principalmente por falta de peças. Como a Movida sentiu essa queda na oferta?
O pior da crise das montadoras já passou. As coisas estão melhorando aos poucos e devem se normalizar até o meio do ano que vem. Há montadora que aposta que até o fim do ano estará tudo bacana. Outras acham que só no segundo semestre de 2022. Mas, de fato, estamos comprando menos carros do que gostaríamos. Não estamos conseguindo. Como fomos os primeiros a vender e os primeiros a comprar, isso permitiu com que fizéssemos os acordos antes. Dentro desses acordos estamos sendo bem atendidos. A Movida tem o maior mix de montadoras do mercado. Então, temos menos dependência de uma ou poucas fornecedoras. A gente compensa o sofrimento de uma com outra.

Quais são os maiores entraves para a recuperação do setor automotivo?
Existe um problema estrutural na indústria automotiva do Brasil. Havia uma expectativa de crescimento forte da economia e isso atraiu muitas montadoras para cá. Hoje temos uma capacidade ociosa muito grande. Esse é o maior problema. Temos capacidade para produzir 5 milhões de carros por ano e estamos produzindo apenas 2 milhões. Com esse cenário, realmente não cabem todas as montadoras que estão no País. Atualmente temos mais oferta do que a demanda existente.

JF DIORIO “Muita gente deixou de usar o transporte público e passou para o aplicativo ou para o veículo alugado. O home office ampliou as viagens de curta distância” (Crédito:JF DIORIO)

E o carro elétrico?
Estamos trabalhando para desmistificar isso. Colocamos pontos de recargas nas lojas. Compramos carregadores portáteis. Compramos adaptadores. Assumimos o compromisso de ter 20% da nossa frota híbrida ou elétrica em dez anos. É longo prazo, mas estamos puxando.

Existe demanda por carro elétrico hoje?
Os brasileiros têm preconceito e, em muitas vezes, não conseguem calcular o custo do carro elétrico. No modelo de compartilhamento, o elétrico é ainda mais interessante porque o tíquete médio é muito alto. Um carro desse custa hoje uns R$ 250 mil. Quando a gente oferece um carro elétrico por R$ 300 ou R$ 400 a diária, sem gastar gasolina, a diferença da diária se paga no combustível. O cliente vai de São Paulo até o litoral norte, sem abastecer nada, chega lá e recarrega na tomada por R$ 10.

O Brasil, entre as grandes economias, é um dos mais defasados nos investimentos e nas políticas de incentivo ao carro elétrico. É culpa do lobby da indústria do etanol?
O etanol é, realmente, muito mais ecologicamente correto do que a gasolina. O etanol pode ser até melhor que o carro elétrico se compararmos a matriz energética de algumas partes da Europa, onde a matriz energética é suja e ruim. Então, como o Brasil tem uma matriz energética limpa, o carro elétrico faz ainda mais sentido.

Em uma análise macroeconômica, o que falta?

Existem desafios estruturais que precisam ser resolvidos para destravar o PIB. Vejo que a reforma administrativa e a reforma tributária são essenciais para a economia deslanchar. Juros contam bastante. O custo do capital é pesado e a queda nas taxas de juros ajudou bastante a gente. Agora, com juros subindo, uma parte vai ser repassada para o consumidor. Acredito que o legado da pandemia será a gestão. Aprendemos que imprevistos acontecem. Superada a pandemia, a indústria está mais flexível e resiliente, que passa por crises e gera valor. Quando mais a gente trabalha, mais sorte a gente tem.

Por Hugo Cilo

Fonte: IstoÉ Dinheiro

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